O carnaval de rua foi das mulheres

Eu fiz esse post sobre experimentar no carnaval focando na descoberta do próprio estilo, experimentar novidades, testar novas ideias…

Mal sabia eu que as novidades viriam dos próprios corpos expostos. E que a liberdade seria algo transformador na vida de tantas mulheres maravilhosas e purpurinadas que pulavam pelas ruas.

Eu vi magras, gordas, malhadas, altas, baixas, novas, velhas, negras, brancas e morenas mulheres enfeitadas pelas ruas. Vi corpos à mostra, vi aceitação, vi alegria. Vi corpos reais se divertindo, vivendo, pulando. Vi gente de todo tipo se sentindo livre.

Vi gente se inspirando na semi-nudez alheia pra se sentir mais confortável com o próprio corpo. Vi gente se aceitando. Vi corpos se encostando sem malícia e vi nudez sendo tratada sem desejo. Vi paqueras e beijos calientes. Mulheres seguras e sorridentes. Vi milhares mas meus olhos só viam elas: as mulheres.

Cada corpo vivo se divertindo era um atestado que somos todas incríveis. Cada diferença que eu via me deixava mais à vontade com as minhas próprias diferenças. Não tinha ninguém igual. E ao mesmo tempo tava todo mundo parecido. A liberdade da rua foi pro corpo. E que lindo isso foi.

Esse nosso carnaval de rua foi um retrato de mulher. Foi forte. Foi Vivo. Foi maravilhoso. Com todos os defeitos, foi mágico. Foi um carnaval feminino.

E vai ser cada dia mais. Vai ter mais mulher de bem com o corpo. Vai ter mais mulher usando o que quiser. Vai ter mais mulher se respeitando e vai ter mais mulher na rua.

Obrigada, carnaval. Obrigada.



Geração Shoptime

Como qualquer criança bem educada dos anos 90, passei minha infância viciada no Ciro Bottini e toda a turma do Shoptime. Eram as maravilhas de uma vida moderna. Era um portal para as últimas tecnologias do lar.
Eu nunca quis ganhar Barbies, bonecas que trocavam fraldas ou mini cozinhas em rosa e panelinhas lilás.
Não. Meu sonho ia além.

Eu sonhava em limpar pisos e muros encardidos com a melhor máquina de pressão do mercado. Poderosa, seu jato d’água era regulável e preciso. Arrancava a sujeira mais resistente ou regava a planta mais sensível. Que sonho.
Passava noites em claro imaginando como seria ter um telefone sem fio com duas unidades, intercomunicador e secretária eletrônica DI-GI-TAL. Sem fita, enfatizava o Bottini.
Arrepio só de pensar em me comunicar com alguém em outro cômodo da casa. Ter um canal pra cada quarto. CA-DA QUAR-TO.
Todo sábado eu acordava ansiosa imaginando os furos impecáveis que eu faria com minha furadeira turbo 2000. Minha mão chegava a suar só de me imaginar parafusando prateleiras com facilidade e sem esforço.
Tapetes e sofás? Já se imaginou aspirando líquidos e pós de uma só vez? Sim, também estou ofegante. É um sonho.

Mas a melhor parte não era do Ciro. Desculpa, Bottini. A melhor parte era o TV UD.
O canal culinário do shoptime foi o primeiro reality de comida da tv brasileira. Esse sim, me prendia horas em frente à tv! E olha que os pratos eram pipoca e panqueca. Quem é Master Chef perto das waffles fofinhos que surgiam daquelas máquinas coloridas!
E se ligar agora, ganha a sanduicheira.
Eu trocava desenho animado por horas de Shoptime na tv. Era maravilhoso.

Quando surgiu o japa da informática?! AQUELE CANAL VIROU O PARAÍSO!
Eu queria morar naquele cenário! Queria viver naqueles cômodos entre furadeiras precisas, frigideiras anti aderentes e processadores 486 com entrada pra CD-ROM.
Isso era infância.
Não era essa coisa de iPad e aplicativos de hoje em dia.
Eu não queria baixar apps. EU QUERIA ELETRODOMÉSTICOS. Eu queria gravadores portáteis, agendas digitais, descascadores de batata e massageadores de pés! Eu queria lençóis estampados e travesseiros com espuma da NASA. Queria fazer meu próprio iogurte! E levá-lo pro parque na minha bolsa térmica de alça regulável e cinco bolsos que vinha de brinde!

Shoptime moldou minha personalidade. Obrigada pessoal. Vocês me fizeram nunca pedir uma Barbie de aniversário. Me fizeram completar minha caixa de ferramentas antes dos doze anos e ter manuais de instruções como leitura favorita até hoje.
Eu não sei como é a Barbie arquiteta mas sei furar parede, colocar a bucha certa pra cada broca e escolher o melhor parafuso. Eu sei.
Família Shoptime. Amo vocês.

Beijos, Ana. Uma fã.

A Malemolência dos Espetinhos

Aqui em BH surgiu um fenômeno maravilhoso na “agitada” vida noturna da cidade: os espetinhos! Começaram há uns 20 anos como opção aos pratos gigantes que costumavam servir: tem a picanha mas tem também o espeto menor. Serve uma pessoa e você pode comer vários tipos de carnes diferentes! Bom demais, né?

Pois é… Pessoal por aqui já ama um bar… e o tal do espetinho foi evoluindo, evoluindo e hoje atingiu níveis de balada. Vivem lotados, rola música ao vivo, dj e muito clima de paquera e azaração! (sempre quis dizer isso hahahahaha)

E vou te contar: eu amo a falta de compromisso do espetinho! Você chega, come o que quiser, bebe o que quiser sem precisar de uma votação e aprovação da mesa inteira pra fazer o pedido: GENTE, ATENÇÃO, VOU PEDIR A PICANHA, QUEM VAI QUERER? PI-CA-NHA! ALGUEM? MATEUS, VOCÊ QUER? 500 GRAMAS? NAO É MUITO? E VOCE JULIANA? NÃO? PREFERE MANDIOCA? VOU VER.

Quem aguenta uma eleição a cada pedido?? Os espetinhos resolveram isso. É PÁ, PUM. Cada um pede o seu, come o seu, paga o seu. PA RA Í SO. E ainda tem a melhor parte: você pode simplesmente IR EMBORA. Não tem conta pra pagar, não tem conta pra dividir, não tem que fazer cálculo, não tem que esperar a maquininha do cartão. Tem nada disso. Você paga tudo antes e plim! Vai embora NA HORA QUE QUISER! Se isso não é vantagem, meus amigos. Não sei o que é…

Fora a maleabilidade das pessoas… Não tem mesa fixa, ou até tem, mas fica todo mundo em pé, misturado, circulando pra buscar cerveja e comida no balcão. Ô coisa maravilhosa! Você pode marcar com umas quatro turmas diferentes no mesmo lugar e dar atenção pra todo mundo. Pode ir sozinha e ficar circulando até conhecer alguém legal, pode esbarrar num moço bom na hora de pegar cerveja… Nunca se sabe a surpresa que um espetinho tem pra oferecer! Você vê isso em restaurante? Nunca vi!

Mas olha, não vá achando que tudo são flores não… Os espetinhos costumam ficar bem cheios e assim… Você já se imaginou com um espeto numa mão, uma long neck na outra, celular entre os dedos, bolsa no ombro e guardanapo equilibrado em algum espaço por ali? Pois é… Comer pode ser um desafio num espetinho. Você vive seus dez minutos de malabarista e torce pra não derrubar a cerveja no chão ou espetar o olho do paquera com o palito do espetinho. Acontece, já vi.

Fora que se você estiver cansada, bem, prepara pra andar, minha filha! É um tal de mesa alta meio bamba, banco alto sem encosto, nada de lugar pra colocar a bolsa e aquela adrenalina de quem nunca sabe se vai perder o equilíbrio e cair do banquinho instável! E se não tiver garçom? Uma ida ao balcão a cada pedido. Se você não tiver no clima paquera… bem, isso pode ser cansativo. (Se tiver eu sugiro alternar as rotas e chamar uma amiga pra bater papo no balcão, funciona! hahaha)

E essa história de comprar tudo antes exige um planejamento absurdo! Eu sempre sou otimista e acho que vou tomar duas cervejas. Acabo voltando pra comprar mais umas quatro. Minha vida realista: ou volto com ficha pra casa ou volto pra fila pra comprar mais. Um dia eu acerto, tô na esperança…

Fazendo a matemática, o espetinho é charmoso. É sexy sem ser vulgar, sabe? Tem um quê de malemolência que só os bares de BH têm. É aquele lugar que te acolhe em qualquer canto da cidade. Tem sempre uma cerveja gelada, um garçom alegrinho e um espeto gostoso. Tem como ser ruim, não, tem?